Caso algum dia sintam que estão aborrecidos por terem excesso de tempo livre, e não sabem como perdê-lo de uma maneira estúpida e irritante, não se preocupem, venham para Luanda!
Esta cidade tem um vasto leque de opções à vossa disposição.
É a terra das oportunidades, assim do género dos EUA, mas neste caso, para vos fazer perder uma tarde numa tarefa mundana, como levantar dinheiro num banco.
Eu tive a necessidade de recorrer ao serviço bancário para o pagamento a um subempreiteiro nosso. Como já tenho conta num banco local para facilitar os reembolsos de facturas com a empresa, e precisava de uma quantia grande, que nas multicaixas não é possível levantar, tem um limite tal como em Portugal, tive que me atirar aos lobos e às filas infernais dos bancos, e aos seus seguranças de AK47 que por lá circulam.
Após 30min na fila para levantamentos, falando com o meu camba (ndr. amigo, companheiro em angolano) ele avisa-me que não posso levantar dinheiro em Kwanzas sem ter cheques. Como não tenho livro de cheques (quem é que tem?) vou perguntar aos balcões se têm livros de cheques ou cheques avulso. A resposta foi negativa para ambas... Bom, estava a ver a coisa negra (não literalmente).
A minha conta é em Kwazas, mas depois de perguntar como contornar a situação informaram-me que para levantar dólares não precisava de cheque. O que faz todo o sentido!
Porreiro! Então perguntei o que tinha que fazer, e responderam-me, "Tem que converter!". Passado um bocado, e com muita má vontade e falta de paciência, lá conseguiu explicar-me que tinha que tranferir internamente kwanzas da minha conta em kwanzas (conta 1) para a conta em dólares (conta 2), através de uma "conversão", e só depois é que podia levantar os dólares. Nada mais simples!
Tinha que mudar de fila...
Invadido pelo mais puro espírito angolano, meti-me a meio da fila ao pé do Bruno e do André (e ninguém reclamou :D), e lá esperei.
Chegou a minha vez!
A moça atende. Tenho que preencher um papel genérico, a pedir para levantar dólares
(porque é que não podia preencher essa folha para levantar kwanzas? eu perguntei, juro que perguntei... e a resposta? "Tem os processo que, e depois há as complicações, e coisas...").
O papel preenchido muda de balcão... Espero... Funcionário conversa ao telemóvel... Espero... A gaja pergunta se ele fez a conversão... Espero... Telemóvel... Amigo... Andam na letra... Espero... Amigo... Espero... Papel em cima da secretária... Eu pergunto se demora... Está quase... Espero... Chefe... Dá raspanete... Espero... Telefone... Espero... Conversão!
Mudo de balcão, para o caixa, vou levantar... Está tudo ok? Não! Era fácil de mais...
Dizem-me que não posso levantar o montante ($1200) que pedi porque há 1% de comissão nos levantamentos e a minha conta só tinha ($1200) disponíveis. Então só podia levantar $1188! Lembraram-se a tempo de me avisar...
O que vale é que por uma questão de pura sorte (podia ter tido perspicácia, mas sou honesto) pedi mais do que precisava, apenas para levantar um valor arredondado, sempre ficava mais bonito.
Foi a minha sorte, senão ia faltar dinheiro para o pagamento... E voltar a fazer o mesmo percurso não era opção agradável.
Recebo os dólares e ponho-me a andar! Tinham-se passado quase três horas desde que abri aquela porta! Estava esgotado e atrasado!
PS: Eu confesso que me passou pela cabeça fazer o câmbio dos dólares para kwanzas.
Perdia dinheiro, com as comissões e essas tretas todas, mas saia de lá com kwanzas, e feliz por ter contornado o sistema de modo a conseguir o que eu queria... Os kwanzas!
Quem me conhece sabe que eu era menino para isso. Não tivesse sido eu vencido pela burocracia irreal dos serviços angolanos, tinha feito. Oh se não tinha!
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sexta-feira, 10 de julho de 2009
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Paciência.
Acho que um dos maiores contributos que esta minha aventura por terras mwangolés terá no meu desenvolvimento pessoal, será sem a mais pequena dúvida, tornar-me uma pessoa mais paciente.
-Eu em Portugal que stressava se ficasse mais de 10min numa fila qualquer para ser atendido, passava-me. Aqui não há "maka"!
- Ficar parado numa fila de trânsito, e demorar mais meia hora para chegar a casa, passava-me. Aqui, se não moras e trabalhas em Luanda Sul, meia hora é coisa para meninos.
- Pensar que levar 1 hora no percurso casa trabalho era motivo para não aceitar um trabalho. Há pessoas que estão há mais de 6 meses a fazer 6 horas (3h+3h) todos os dias para ir trabalhar.
- Explicar mais que uma vez uma coisa a alguém, e a pessoa dizer sempre que percebeu, depois vais ver, e está a fazer precisamente o contrário...
- Haver 10 pessoas à volta de um trabalho, em que está um moço lá no meio a trabalhar, ao seu ritmo angolano (aqui faz calor, chefe), e os outros 9 a conversar e a ver.
- Teres que esperar alguns minutos no carro, a buzinar, para que o segurança te venha abrir a cancela, porque estava a dormir.
- Pedires algo num bar, o gajo diz ok, desaparece, volta serve outra pessoa, passado 5 minutos pensas que ele se esqueceu e pedes a outro. Pouco depois, chegam as coisas em duplicado.
Sinceramente, é preciso muito paciência ao princípio. Depois acabas por já nem ligar, habituas-te ao ritmo, e ris-te das situações.
Afinal estamos em Angola, chefe! Não há maka!
Glossário: "Não há maka". Significa, sem stress, não faz mal... Muito utilizada por cá. E cada vez mais percebo porque os pulas também a adoptam ao fim de uns tempos.
-Eu em Portugal que stressava se ficasse mais de 10min numa fila qualquer para ser atendido, passava-me. Aqui não há "maka"!
- Ficar parado numa fila de trânsito, e demorar mais meia hora para chegar a casa, passava-me. Aqui, se não moras e trabalhas em Luanda Sul, meia hora é coisa para meninos.
- Pensar que levar 1 hora no percurso casa trabalho era motivo para não aceitar um trabalho. Há pessoas que estão há mais de 6 meses a fazer 6 horas (3h+3h) todos os dias para ir trabalhar.
- Explicar mais que uma vez uma coisa a alguém, e a pessoa dizer sempre que percebeu, depois vais ver, e está a fazer precisamente o contrário...
- Haver 10 pessoas à volta de um trabalho, em que está um moço lá no meio a trabalhar, ao seu ritmo angolano (aqui faz calor, chefe), e os outros 9 a conversar e a ver.
- Teres que esperar alguns minutos no carro, a buzinar, para que o segurança te venha abrir a cancela, porque estava a dormir.
- Pedires algo num bar, o gajo diz ok, desaparece, volta serve outra pessoa, passado 5 minutos pensas que ele se esqueceu e pedes a outro. Pouco depois, chegam as coisas em duplicado.
Sinceramente, é preciso muito paciência ao princípio. Depois acabas por já nem ligar, habituas-te ao ritmo, e ris-te das situações.
Afinal estamos em Angola, chefe! Não há maka!
Glossário: "Não há maka". Significa, sem stress, não faz mal... Muito utilizada por cá. E cada vez mais percebo porque os pulas também a adoptam ao fim de uns tempos.
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