segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Road Trip - Parte 2: O safari!

5h30...

O dia começou logo cedo. Tínhamos que nos despachar a ver se apanhávamos lugar no animog para o safari (sim, ainda tínhamos esperanças...). Então às 5h30 já estávamos a acordar, arrumar as trouxas, as tendas, e a limpar o lixo

O pequeno almoço nutritivo.
(Não, não é o carvão, é o queijo às fatias com o pão duro.)

O acampamento.

Depois de tudo pronto, lá fomos nós ter com os guias, tentar negociar a nossa ida no safari. Ok, certo é que não havia mais lugares às 6h, agora só às 9h, na segunda visita. Então queriam nos impingir um guia por 50 dólares por cada carro. Só que nós ao bom espírito tuga, vimos 1 grupo de dois carros brasileiros pagar ao guia, e então dissemos que os íamos seguir, e que no fim acertávamos contas. E não é que colou?

A sair do recinto, rumo ao safari.

A caravana no meio da savana.


Eles deviam asfaltar esse caminho todo!
(Torna-se incómodo fazer um safari para ver animais selvagens no seu habitat natural e ter que andar em picada! Não se compreende!)


Entretanto, íamos parando aqui e ali, com o nosso guia a aproveitar para analisar os excrementos que encontrava, sentindo a sua textura, temperatura e viscosidade, para seguir o rasto dos seus donos (ok, acho que já estou a exagerar...).

O nosso guia. E um brasileiro meio fanático vestido à tropa.

Isto, aliado ao vento, e ao trilho único já marcado pelos carros, permitia seguir o nosso caminho. Sempre em frente!
E lá continuávamos nós na nossa busca pelos muitos bambis, simbas, pumbas e dumbos dessa reserva natural. Só que após quase duas horas de percurso... Nada!

Apenas tínhamos encontrado uma espécie de galinha, um gnú que só uns é que viram ao longe, muito ao longe... E uns 2 bambis pequeninos.

O passaroco.

Um dos bambis. Se não acreditam azar.

A frustração começava a instalar por entre os nossos. O sentimento de revolta apoderava-se de nós.
Chegamos até a protestar afirmando que iríamos querer o nosso dinheiro de volta!
Mas como não tínhamos pago nada, nem tencionávamos pagar, essa ideia cedo morreu...

Numa das nossas paragens, resolvi ir para a caixa da carrinha dos brasileiros, que por sinal estavam podres de bêbedos e estavam de directa.

Os meus novos amigos.

Nisto, um deles (o da direita), grita que viu uma girafa.

Eu obviamente não liguei, e até me admirei de ele não ter afirmado ver um elefante cor-de-rosa a passear de mãos dadas com um crocodilo, tal era o estado do moço.

Não é que o sacana tinha razão?

Todos nós, num misto de National Geografic com turista japonês, começamos a sair dos carros e a tirar fotos feitos parvos.

Amazing!

Seguiram-se as tentativas de aproximações estratégicas de cerco às girafas.
Elas lá ao longe.

Houve até uns cercos coordenados pelas duas carrinhas brasileiras (eu estava presente) em que cada um por seu lado, tentaram encurralar umas girafas. Só para terem uma ideia do estado dos moços...

Agora, vocês que estão lúcidos, tal como eu estava na altura, percebem como é ridículo pensar que se pode encurralar girafas com 2 carros num espaço aberto sem quaisquer obstáculos. E não se admiram que as tentativas saíram todas frustradas.
Mas eles admiravam-se, e culpavam o outro veículo de não ter feito bem as coisas.

Eu estive lá!

As girafas importadas da África do Sul.
Eu quase que juro que as ouvi falar em inglês.

-How are you?
-Fine. How long are you in Angola? Do you like it?
-Just got here last week. It's been dificult. But it pays well!

Lá seguia ela à sua vida.

De regresso à carrinha, os meus amigos chamaram-me de maluco. Porquê?
Eu de chinelos e calções, e os outros de calças, sapatos e vários pares de meias.

Simples. Eles disseram-me que vestidos como estavam, nem tiveram coragem de ir para o meio do capim. E que eu tinha ido de chinelos e calções...

Só depois é que me lembrei, realmente, que estávamos em África.
Por cá existem cobras venenosas, que podem ser mortais se não tratadas rápido. (e diga-se que hospitais não abundam nas redondezas de onde estávamos).
E eles é que eram os bêbedos...


De regresso ao recinto do parque. Lá no café.

A vista do parque.

Próximo destino? Cabo Ledo? Não... isso é o que tinha sido combinado, nós claro que tínhamos que fazer algo diferente!

Então arrancamos...




terça-feira, 3 de novembro de 2009

Road Trip - Primeiro dia

Fim de semana grande à porta, é sinal de grandes planos e viagens para longe da confusão, do barulho, da insegurança, do stress, do trabalho.
Quase toda a gente aproveita para passear e conhecer o que de bom Angola tem para oferecer. Nós não fomos diferentes, e lá fizemos uma espécie de planos.

Vamos arrancar no sábado, vamos ao Parque da Kissamba, dormimos lá, vamos a Cabo Ledo no dia seguinte, dormimos lá, e do regresso faz-se praia em Sangano. Simples!

Os planos para o fim-de-semana.

Então, no sábado ao almoço, saí do trabalho, já estava atrasado para me encontrar com o resto do pessoal no Belas, onde íamos almoçar e fazer compras.
Fui a casa às pressas, buscar o indispensável.
Vestir calções, t-shirt e chinelos, por toalha de praia, produtos de higiene, e mais alguma roupa na mochila, e toca a andar que se fazia tarde!
Não sei porquê mas saí de casa, com aquela sensação de que me esqueci de muita coisa importante para acampar um fim-de-semana fora!
Mas claro que não tinha!

Começou logo com o passaporte... Tinha ficado no meu carro...
(Fiz um total de 1000km, passamos 10 vezes pela polícia. E nunca fui parado. Acho que esgotei toda a minha sorte nesse fim-de-semana! Adiante.)

Paragem habitual no tasco mais badalado da povoação Km 30. Para matar a sede depois de uma extenuante tarde de esplanada e compras de supermercado, era obrigatório repor as forças!
O tasco!

E espantem-se, tem esse nome porque fica no 30º quilómetro a sul de Luanda! (aposto que nunca iriam descobrir a origem do nome!)

Uma foto para terem uma ideia do aspecto do Km 30.

A festa prometia! Tivemos todos muita pena de ter que arrancar...

Mas já se fazia noite, e arrancamos em direcção ao parque, onde íamos acampar. Sim isso, acampar. Aquela coisa que se faz com tendas. Sim isso, tendas. Aquela coisa que eu e o Fernando não tínhamos! Bom, mas também já tínhamos ouvido dizer que os Jimmy's até são confortáveis. Não havia maka!
O sol já se punha, como sempre cumpríamos escrupulosamente os planos.

Após sairmos do asfalto, rumo ao destino, a entrada para o parque é feita por um caminho de picada, com cerca de 10km, em que demoramos 1hora à noite, em estrada esburacada, e temos que passar por 3 pontos de controlo, com guardas do parque.


Já chegamos!
Bom, como dormir 2 noites seguidas no carro, podia vir a trazer consequências para a nossa velhice, eu e o Fernando decidimos alugar uma tenda. O preço? 60 dólares! Nada mais barato, deveria incluir jacuzzi e A/C! Pensamos nós convictos!

Não se fiem no exterior. Tinha melhor aspecto por dentro, acho eu...

Certo é que já tive em hotéis mais baratos que essa tenda... Mas fazer mais como?

Era hora de comer e programar o safari do dia seguinte. Haviam visitas feitas num Animog, que partiam às 6h da matina, por 25 dólares a cabeça, mas só que as reservas já estavam fechadas. Chegamos tarde, ao que parece... Agora só havia viagem com guia, por 50 dólares por carro. Ok, amanhã era dia, depois víamos.
O dito cujo.

A sala do banquete. Nosso e dos mosquitos!

O tacho!

Depois do tacho, tentamos arranjar um sítio para ver o Benfica ser roubado pelo Braga, mas o restaurante fechava cedo e nada feito. Também não perdemos muito, diga-se de passagem...
Pelo meio metemos conversa com o staff lá do parque, tentar saber quais as melhores horas para ir ver os bichos, e que tipo de bichos é que por lá havia...

Para muita tristeza nossa, não havia lá carnívoros. Nada de leões, tigres, hienas, leopardos ou o que quer que seja que nós pudéssemos ver a dilacerar uma gazela inocente, e a jorrar dos seus membros litros de sangue... A nossa viagem tinha sido em vão...
Bom, lá tínhamos nós que nos contentar com girafas e elefantes.

Nota: Angola sendo um país por excelência importador de quase tudo, não deixa de ser caricato que até os animais lá do parque, tenham sido adquiridos na África do Sul... Isso apesar das espécies serem angolanas. A guerra deixou as suas marcas.
Essa informação foi-nos dada pelo pessoal do parque.


Já se fazia tarde, e fomos todos dormir, mordido por milhares de mosquitos, aparentemente sem malária. (até à data ninguém ficou doente...) Os sacanas não nos largavam as pernas. Sim porque a certa altura eles já não conseguiam voar mais alto. Certamente por estarem com o bucho inchadíssimo de sangue, assim tipo nós com a cerveja em que só apetecia deitar e ficar a rebolar pelo chão.

Amanhã prometia!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dakar voltou à África!

O todo poderoso Jimmy. A única máquina a concorrer.

Pois é meus amigos, após um interregno de um par de anos, eis que a prova rainha do todo o terreno regressa às origens. Só que ninguém ouviu falar disso, e apenas participaram dois concorrentes.
Eu e o Paulo!
O meu concorrente directo.


Eu tinha o Bruno como navegador. E o Paulo ia com o Félix e o Ambrósio.


Atingiram-se velocidades alucinantes!!
(em segunda, com as redutoras ligadas)


Tudo começou quando o Félix arranjou a casa da empresa que fica lá no Mussulo, e nós decidimos ir passar lá o fim-de-semana. É uma casota pré-fabricada, em que a empresa disponibiliza um empregado que nos faz tudo. Cozinha, limpa, arruma, faz lume. Vive-se à patrão!

Só que ir de barco para lá não tem a mínima piada... 5 minutos e já está (caminho a amarelo na foto abaixo). Não! Alguém lembrou-se de ser diferente.
Ilha do Mussulo
(Obrigado ao Bruno pelo trabalho. Ainda lhe vou roubar mais fotos e vídeos)

Como um de nós já tinha ouvido dizer, um certo dia, que alguém já tinha ido de jeep por terra (caminho a vermelho), que é um caminho só de areia solta e fofa, e que achava que era possível lá chegar por essa via, à última hora, como mandam as regras, mudança de planos!


Resumindo, ninguém sabia o caminho nem tinha ido lá antes por terra, eram mais ou menos 15h e faz noite escura às 18h00. Ninguém sabia a distância exacta até à casa. Ninguém sabia quanto tempo se levava. Ninguém sabia qual o melhor caminho. Ninguém sabia se havia algum trilho que não tinha saída. Nada! Só tinha meio depósito de gasolina para ir e vir, o que prontamente afirmaram com muita convicção "Meio depósito? Dá perfeitamente!". A minha experiência em condução na areia era nula, em todo terreno, a mesma coisa!

O que é que poderia correr mal nesta viagem?

Se ao menos tivéssemos algum sinal, que algo poderia correr mal...
Bom, como não tivemos qualquer tipo de sinal. Lá seguimos viagem todos alegres e contentes!
2 Jeeps Jimmys e 5 gajos, com 2 grades de cerveja e comida. Não nos faltava nada!


Então, sentido a pressão de estarmos com horário apertado, porque não podíamos apanhar a noite pelo caminho, sob o risco de nos perdermos, urgia despachar.
Por isso, pelo caminho paramos no tasco do costume para um cervejinha fresquinha. Há que definir prioridades!



Entretanto, acabamos por encontrar pessoal da empresa, que iam acampar numa zona no início do percurso, e que ficaram espantados por irmos assim, sem nunca termos feito o percurso, ou sem qualquer experiência.

"Já lá fui buscar uns quantos. Não vos vou buscar também."

Foram algumas das muitas conversas de encorajamento que nos dirigiram...

Entretanto, sugeriram-nos baixar a pressão dos pneus, e ajudaram-nos na tarefa, com um aparelho que lá tinham.

Mas claro que não precisavam de o fazer, porque obviamente que foi a primeira coisa em que nós pensamos... Ok?

Nós não somos assim tão inconscientes... O que é que julgam?
Afinal sempre trouxemos uma corda!

Paragem nas "boxes", para afinar a pressão dos pneus!

Ligamos as redutoras e lá arrancamos nós novamente!



Jimmy com as redutoras a cavar na areia solta. Claro que ficou atolado logo no arranque... Isso prometia!

Trilho de areia.

A perseguição

Sempre a "abrir"(dentro dos possíveis).



O cenário desértico que nos rodeava pelo percurso.

Pode-se dizer que este é o cenário ideal para nos perdermos.
Pensam vocês, é mesmo parvo, bastava telefonar para o outro.
Claro, e dizíamos, "Olha, estamos aqui, naquela estrada de areia. Tas a ver?"

Por isso, nós nos perdemos... Havia que dar alguma emoção à coisa. Passado alguns minutos, encotramo-nos não sei bem como, para passados 10 metros, atolarmos com o Jimmy a ir contra um banco de areia. Assim como que naufragar, estão a ver?


O reencontro emocionante. Chegaram-se a derramar lágrimas...


A escavar a areia por baixo do carro.

Com essas tretas todas, fez-se noite escura. Por meio de palmeiras, e barracas de alguns moradores, lá fomos nós à sorte a tentar dar com a casa. A alternativa era dormir no carro. E com o Bruno ao meu lado, não podia arriscar! Havia que encontrar a casa a todo o custo!

A visibilidade que tínhamos na última hora de viagem.

Apesar de nada dar a entender que poderiam acontecer, tivemos alguns percalços, mas lá chegamos à casa, e comemos e bebemos noite fora.

A praia à porta da casa. Foi acordar, arrastar-me por 4 metros, a muito custo, e deitar na areia. Valeu o esforço!

Na contra-costa (do lado do Atlântico).

O André e o Fernando trabalharam no sábado da tarde, por isso juntaram-se a nós no domingo.
Foram de barco... Mesmo meninos!


Eu sabia que ia correr qualquer coisa mal!
A merda da máquina avariou...
A última foto da minha máquina...

No regresso, a meio caminho acende a luz da reserva... Boa! Tendo em conta que com as redutoras 4x4 ligadas, o sacana do carro bebe gasolina mais rápido que a gaja que vimos lá no Mussulo bebeu uma lata de Cuca que roubou de outra gaja (é uma longa história...), fiquei realmente preocupado.
Mas só havia uma coisa a fazer: Seguir em frente sempre a fundo! Se não atolávamos.

Surpreendentemente, no regresso não houve ninguém atolou, nem a gasolina acabou. E a viagem correu às mil maravilhas.


Foi uma experiência altamente, daquelas que valem mesmo a pena passar, apesar de tudo, e que ficam para sempre marcadas. (que o digam o André e o Fernando que vieram à boleia no regresso, ainda devem ter mazelas da porrada que levaram no banco de trás.)


Por isso já sei.


Para a próxima vou de barco!

sábado, 3 de outubro de 2009

Não há palavras...

Estava a circular de carro alegre e contente, quando assim do nada, a realidade deste mundo cruel entra-me olhos dentro...

Dorme ali abrigado.


Ninguém que se considere um ser humano, consegue ficar indiferente a uma situação dessas.

E eu que, vá lá, até me considero uma pessoa sensível à miséria humana, obviamente que não fiquei...


Ver na varanda de uma casa de luxo num condomínio de gente rica, um jovem sem abrigo que dorme, envolto numa caixa de cartão, para se abrigar do frio que se faz sentir na noite gelada. O contraste era gritante.

Quando já estava a sacar de uns kuazas para dar ao moço. Parei.. pensei...


Espera...


Há qualquer coisa que não bate bem neste cenário...


Espera...


Quer dizer, estamos em Angola, e são 15h30... Não faz frio nenhum! Aliás até está um sol do caraças...


Espera...


Este não é um condomínio de luxo qualque, é a minha obra..


Espera...


Este gajo não é um sem abrigo... ele trabalha para nós!


Então?!?!


Não é que estávamos em plena hora de trabalho, e o sacana, possivelmente exausto do muito esforço que fez ao ver os outros a trabalhar, deita-se ali enrolado nuns cartões a ver se ninguém dava por ele.

Afinal podia ser que ninguém reparasse, e o confundissem com o cerâmico do pavimento...
Não sei, podia ser que tivesse sorte!


Após uns breves segundos em que quase, quase, quase, fui piegas, corri com o gajo da obra!


Enfim como dizem por cá,

"Estamos em Angola."